
A tempestade
Começava mais um dia calmo e solarengo na pequena aldeia piscatória. As mulheres da aldeia preparavam as redes para mais uma noite de pesca. As horas corriam como o rápido entrelaçar das agulhas. Os pescadores fortes e rudes e de barbas fartas e sujos de sal e de peles negras queimadas pelo sol preparavam os barcos. As crianças brincavam na praia com os restos de fio e de peixe que foram deixados para trás.
Depois do pobre jantar feito de sopa e restos migados, vestem os oleados e as galochas e correm todos para o barco prontos para entrar no mar.
Preparam o barco, atiram um beijo as mulheres e seguem alto-mar.
A noite começava a esfriar quando, as primeiras gotas de chuva caiam sobre o barco. As ondas começavam pequenas e iam aumentando, aumentando até embaterem no casco do barco e saltarem proa acima.
Com a sua força e necessidade, os pescadores continuavam a trabalhar e a levantar as redes cada vez mais rápido. Mas a chuva caia cada vez mais intensa. Ouvem-se os primeiros relâmpagos, vêem-se os grandes clarões. A tempestade está no mar.
Apressados os pescadores arrumam tudo e tentam a toda a força tirar a última rede de peixe que amanhã os alimenta, sem sorte.
Içam a âncora e começam a tratar do seu regresso a terra.
As mulheres em casa ouvem os relâmpagos. Cada vez mais próximos. Saem á rua debaixo da chuva forte e olham o mar. Choram e gritam com as ondas que vêem. Alertam a pequena aldeia, onde a maioria dos pescadores se esforça a tirar as pequenas embarcações do mar. É impossível aquela tempestade não os levar.
No meio do oceano, aqueles pequenos pescadores, esforçam-se para controlar o barco que balança ao ritmo das ondas e do vento forte que se faz sentir.
Ao longe vêem os remoinhos a formar-se e a arrastar pequenos paus para o fundo do mar de uma só vez. Assustados, recorrem a forças desconhecidas para levar o barco a bom porto. Em vão rezam para chegarem sãos e salvos a pequena aldeia piscatória. Tudo depende deles, pois com aquele tempo ninguém se atreve a entrar no mar para ajudar.
Num piscar de olhos, uma onda enorme entra pelo barco e arrasta um dos pescadores para o oceano. Os colegas ainda tentaram gritar por ele e traze-lo de volta ao barco. Já nada havia a fazer. O mar levou-o para o desconhecido.
Chorosos e com raiva os pescadores quase desistiam, era cada vez mais complicado segurar o barco e impedir que este naufragasse. Com a força conhecida dos portugueses, de serem um povo de mar, os homens redobraram-se em esforços para salvar a embarcação e as suas vidas.
A tempestade era a cada minuto e segundo, mais forte. O som do mar tornava-se ensurdecedor como se de uma voz tremenda se tratasse, uma voz que ameaçava os homens.
Essa ameaça chegou pela forma de um remoinho que a todo o custo tentava levar a embarcação para o fundo do mar. Sem outra opção, os pescadores saltam ao mar.
Observam o barco a afundar-se no mar e ficam ali a subir e descer naquelas vagas enormes.
A angustia era agora cada vez maior, tão grande que parecia sufoca-los. Os pescadores pensavam numa maneira de sair daquele mar, mas só um milagre os podia salvar. Sem mantimentos. A água fria a gelava-lhes os corpos. A vida corria-lhes afrente do olhos. Rezavam, choravam. A noite começava a dar lugar ao dia. A tempestade começava finalmente a acalmar.
Ao amanhecer, a madeira do barco, chegara à praia, e flutuava nas ondas, avisando os pescadores da pequena aldeia de algum naufrágio nas proximidades.Fora efectivamente a dois quilómetros ao sul da praia da aldeia, e a pouco mais de 200 metros da costa. Correu tudo ao local do sinistro, e dentro em pouco, em frente do doloroso espectáculo do naufrágio, mais de 200 pessoas se apinhavam e confrangiam no duro desespero de não poderem valer àqueles pescadores, que lá estavam ainda, pendurados sobre a morte, na mais penosa, na mais pungente, na mais aflitiva das situações humanas. As mulheres gritavam estrondosas lamentações e estendiam na praia os braços para o navio. A vontade era muito mais extensa do que os braços, os braços é que eram muito mais curtos do que a distância, distância que era tremenda, onde ninguém dava dois passos sem aventurar a própria vida.Fracos e quase a desistir, os pescadores vêem ao longe um pequeno barco que vagueava pelo mar. Abandonado, devia ter-se solto da beira-mar com a força da tempestade. O milagre aparecera.
Saltaram para o barco gastando todas as suas forças e caíram inanimados no convés. De repente um riso hilariante ecoa. Um dos pescadores agradecia assim a sua sorte. Não acreditavam que tinham conseguido.
Num pulo, levantou-se, arrastou com eles os outros pescadores, queriam chegar o mais rápido á praia, onde a família desesperava por noticias.
Os pescadores ganhavam assim forças para recomeçar a viagem.
Durante a viagem lembravam-se da tempestade e do companheiro perdido e da família deste pobre homem. Em homenagem lançaram a pequena imagem de um santo ao mar.
A viagem passou tão rápido como a tempestade. O tempo parecia correr tal como as imagens daquela horrível noite na cabeça dos pescadores.
Chegam a terra onde são recebidos em clima de festa. As mulheres correm para os braços dos seus homens e as crianças riem e brincam á volta dos pais.
No meio da alegria da multidão havia uma mulher chorosa, agarrada ao filho pequeno que pouco compreendia. Era a mulher do homem que o mar levou e que não se sentará mais à beira-mar e não contará mais histórias de pescador e não arremessará mais a sua isca e ainda que o seu cesto possa estar para sempre vazio, hoje os olhos da aldeia estão cheios de lágrimas.
Os pescadores aproximam-se da mulher e prestam-lhe condolências, explicam o que aconteceu e tornam aquele pescador num herói da terra.
Apesar da tristeza o clima de festa continua com uma caldeirada de peixe e vinho maduro. Música e conversas acompanham a tarde. Á noite em volta da fogueira feita de paus, contasse a história da trágica noite de tempestade que aqueles pescadores nunca mais esquecerão e homenageia-se aqueles que um dia perderam a vida no mar.
Os pescadores da pequena aldeia fazem assim a sua vida, de tempestades e bonanças. A vida dura do mar corre-lhes nas veias.
A festa acaba já noite dentro. As mulheres deitam os filhos e preparam a marmita para os maridos. Os pescadores tratam dos barcos e rezam ao santos dos mares e estendem as redes. Preparam-se para descansar. No dia seguinte voltam ao barco, lançam-se ao mar.
Os pescadores são homens de fé e empenho e dão a sua vida ao mar. Conhecem as ondas e as rochas e as falésias. Sabem qual é o bom peixe e sabem o que é preciso para o apanhar.
As mulheres dos pescadores têm traços marcados e levantam-se cedo e preparam marmitas e ensinam as crianças e limpam as casas e concertam as redes. Elas cortam e amassam e vendem o peixe.
Na aldeia de pescadores nada se passa. A rotina molda o dia, mas as vezes existe uma tempestade. Muda a vida a vida da aldeia e dá-lhe outro rumo e mostra-lhe novos horizontes.
Desde pequenos que esta vida os espera. E o mar é sustento é brincadeira e ladrão. Mas é a única coisa que conhecem.
Marta Rodrigues

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